quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quase tão leve.

Uma das coisas que mais impressiona é nunca saber por completo qual o efeito que você causa nas pessoas e elas nunca saberem ao certo se fazem diferença na sua vida.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

bastidores.

                                                                                     long beach.
Sente apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.

fazes-me falta.



Esperavas demasiado de mim, esperavas demasiado da vida. Vivias num sebastianismo de alta rotação que às vezes me exasperava, Ninguém ia melhorar- nem o funcionalismo publico, nem a justiça, nem a paisagem , nem o meu rosto no espelho.Amavas-me muito pelo que eu não era, queria a força que eu concretizasse os projetos loucos que as vezes tinha.E eu gostava de imaginar coisas que nunca existirão.


foto/santa.catarina.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Das querências.

Não sorriu o mesmo tanto e quando falou, nem precisava dizer mais nada. Ela sabia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

nada é justo e pouco é certo.






O caminho ate voce era menos longo que se imaginava:
mas cansativo feito maratona , perigoso como um labirinto.
Ouvir e com você falar, me tocar para que eu possa sentir, 
Isso nao era possível:
o seu abraço era porta fechada .


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

o seu problema sou eu.

O problema não é ter medo do amor , é amar quem tem medo dele.

da força que tem,

E então transborda. De forte. É um amor assim tão delicado, que dá medo de tocar. Tão doce, de lamber os dedos. Tão puro, que ainda nem sabe a força que tem.

com sentido.

Poderia te amar somente com o olfato. E te abraçar com os ouvidos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

minha querida vida social.

quinta : jantar dos eternos namorados
sexta : filminho com o pessoal do biscuit
sábado: XI encontro com a escola católica de Petrópolis
domingo: almoço na Regininha

alguma coisa sobre querer.

negligência supera o desejo, sempre.

Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia.

o tempo é outro.

Não que estivesse triste , só nao compreendia o que estava sentindo , não que voce nao me fizesse bem , mas nao me fazia sentir , eu nao preciso de uma pessoa para amar, eu preciso amar para uma pessoa.

Gente de verdade tá em extinção.

Queria que voce um dia pudesse entender o por que do meu sumiço , do meu descaso , mas eu nao posso, meu bem , ser pra você tudo o que voce esperava que eu fosse , eu nao posso deixar pra traz todos os meus preceitos e minhas crenças tolas e infames , eu nao posso ouvir suas promessas e fingir que me encontro dentro delas, fazer planos como os quais você fazia comigo , como olhava com olhos de futuro quando o que eu mais queria era fujir dali e rejeitar suas mãos que insistiam em me tocar com aquele carinho chato que nao era o certo, eu nao podia fingir mais que gostava das nossas viagens , se o que eu mais queria era pegar o próximo voo pro Rio e desaparecer daquela pousadinha-eternos-namorados que você arrumou pra gente , que nao tem nada haver comigo, mas no fundo voce sabe que eu preferia uma barraca em Sana , um bom vinho e nao essa champagne caro e desnecessário que voce me fazia tomar, que eu preferia um bom livro a esse anel que esta no final de todos aqueles aneis que eu coleciono , de todos aqueles que um dia achou que pudesse me fazer sentir, voce sabia que eu nao podia ser pra voce aquilo tudo que voce precisava , que eu nao podia te transformar de novo em um universitário de 18 anos , ja que era um quarentão. ou trintão ,tando faz, voce sabia que a minha insistência era por voce , por eu saber que voce se sentia bem comigo e sentia por mim o que nunca sentiu por ninguém , que eu te fiz sentir o que ninguém nunca fez ,porque eu sei fazer isso.
E o pior é que voce sabia que eu iria sumir , assim de uma hora pra outra , que eu nao ia aguentar muito tempo seus jantares com aqueles seus amigos sujos de dinheiro que queriam só prazer , com aquelas putas-damas-de-companhia que lhe faziam assistência, que serviam de trofel pra um idiota que preferiu levar a esposa de 30 anos mas limpa, eu nao era uma dessas , eu nao queria ser uma dessas , eu nao queria que me olhassem como aquela menina precoce que tenta fazer com que o senhor de 30 se sinta menos ameaçado com a idade , e voce sabia disso.
é , eu sei que eu nao era aquilo pra voce , e sei que voce me falou todas aquelas coisas com carinho , eu sei que voce sabia que eu nao gostava nem um pouco do seu filho , aquela criança mal educada que nao sabia se comportar a mesa e nem a lugar nenhum,
Mas voce sabe que eu tentei , eu tentei ser a mae dele , tentei ser a sua mae ,sua mulher, tentei te fazer ver que voce pode muita coisa ainda e eu espero que voce tenha visto , eu tentei mudar tudo o que eu penso sobre amor e mentiras pra viver com voce uma historia , mas nao , nao dá , eu nao sei ser assim , eu nao sei sentir , eu até tento, entenda que a culpa nao é minha , e que nada que eu poderia ter feito eu fiz e nao me arrependo , de nao ter sido uma boa moça pra voce, e a culpa tambem nao é minha que voce nao tenha sido quem me fara enchergar toda a verdade sobre o amor
Eu até já tentei ser diferente, por medo de machucar, mas não tem jeito: só consigo ser igual a mim.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

falando sério.

E te olhava com cara de quem queria mais uma noite de sexo, um beijo inocente,carinhos até perder a hora, e eu poderia passar horas e horas com o telefone desligado só ouvindo seus planos ao som Caetano , ouvindo aquelas historias do seu filho que te faziam rir , eu poderia passar mais alguns meses fugindo do mundo , amando escondido , de mim mesma , mas eu fugi de tudo o que nos cercava e ninguém mais pode te trazer de volta todo o carinho que um dia eu te dei , me queira bem, eu só fui o que você pensava que eu ia ser , meu amor.

‘ você não sabe , mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ogoj.

Assim como as estações, as pessoas têm a habilidade de mudar. Não acontece com freqüência, mas quando acontece, é sempre para o bem. Algumas vezes leva o quebrado a se tornar inteiro de novo. Às vezes é preciso abrir as portas para novas pessoas e deixá-las entrar. Na maioria das vezes, é preciso apenas uma pessoa que tenha pavor de demonstrar o que sente para conseguir o que jamais achou possível. E algumas coisas nunca mudam. E que comece o novo jogo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

você partiu.



She opened her eyes ... and there was the whole world in front of me.

domingo, 12 de setembro de 2010

reticências.


Intimidade é quando a vida da gente relaxa diante de outra vida e respira macio.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

quando ela me deixou.

QUANDO Ana me deixou – essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos – e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou – e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo – esse espaço branco sem Ana – de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, pergunrando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou – não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana – depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca – de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência – e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito – nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava perdir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana – e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar ¿ então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés ¿ ela volta, garantiam, mas ela não voltava – e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarajá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, transponível e natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e o windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento – aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, arrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.


CFA.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

the end.

Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a
coragem de me enfrentar.
Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.